Não é estupro se for na Globo?


 

Publicado em 4 de agosto de 2011 por Leonardo Gonçalves

Há alguns meses a arroba mais influente do Twitter, como Rafinha Bastos gosta de ser chamado, foi duramente criticado por fazer uma piada sobre estupro dizendo que “mulher feia quando é estuprada deveria agradecer”. Além dos ataques no Twitter, o Ministério Público decidiu investigá-lo por conta da piadinha desrespeitosa e de péssimo gosto. Nada mais justo. Estupro ou qualquer outro tipo de abuso sexual é algo nojento e criminoso. Além disso, uma “piada” como essa fere a dignidade de quem já passou por essa situação e dos seus familiares. Eu tenho um caso de estupro na família e me sinto ofendido quando vejo alguém banalizando algo tão grave.

Rafinha Bastos gera polêmica com piada sobre estupro

Paralelo a tudo isso, a nova sensação do sempre engraçadíssimo e inovador Zorra Total [/ironia] conta da história de uma transexual e sua amiga feia que andam em um metrô lotado e suas desventuras cotidianas. Tudo isso em meio a um bordão que se popularizou rapidamente: Ai, como eu tô bandida!

O roteiro do quadro não muda: Janete encontra Valéria, elas comentam sobre a cirurgia de mudança de sexo de Valéria, fazem uma brincadeira de “você gosta?” – “gosto” até o infinito que irrita o telespectador e a personagem, Valéria dá meia dúzia de patadas e apelidos em Janete e, por fim, alguém abusa sexualmente de Janete no vagão lotado. Neste momento Valéria, muito debochada, diz pra amiga aproveitar o momento porque não é sempre que uma mulher como ela tem esse tipo de sorte. Ou seja, em meio a todas as claques e clichês que imperam no programa de sábado, ensinamos semanalmente que a mulher não deve reagir ou se ofender caso seja sexualmente abusada, e caso venha a sofrer um estupro, deve se sentir sortuda, pois nenhum homem gostaria de se envolver com uma mulher feia. Percebam que é exatamente a mesma piada que saiu da boca de Rafinha Bastos e foi absurdamente pisoteada. Porém na Globo sua projeção é outra, torna-se benéfico. Ignora-se o fato do desrespeito a dignidade. O pior de tudo: tal quadro alcança hoje 25 pontos no Ibope. Todo sábado a noite o mesmo roteiro ensina às mesmas pessoas que estupros e abusos sexuais são bençãos, e não devem ser denunciados.

Valéria e Janete, personagens do Zorra Total que tem elevado a audiencia do programa

Fica a pergunta: Qual a diferença do estupro de Rafinha Bastos e do estupro de Valéria e Janete? Nenhuma, salvo o poder de penetração da mensagem. Enquanto Rafinha atende a um público mais “elitizado” socio-culturalmente (afinal, ele é defensor do tal ‘humor inteligente’, apesar dos quilos de preconceito), o Zorra Total vai de encontro com um povo que provavelmente não teve acesso a informação e que utiliza na maioria das vezes a televisão como seu quadro negro involuntário. Os quadros subsequentes colocam a mulher como unicamente uma fêmea, um objeto sexual, ridicularizam o fato Presidência do Brasil estar nas mãos de uma mulher e passam uma hora semanal fazendo o retrógrado humor da mulher de pouca roupa, erotizando o telespectador. Esse é o mesmo programa que ensina que estupro é o novo ‘casar e ter filhos’. É um humor machista e misógino. Eu sinceramente não acho a menor graça dessa bandidagem da Valéria.

Aos que não sabem: hoje no Brasil, 43% das mulheres brasileiras sofrem violência doméstica; uma mulher é violentada a cada 12 segundos; a cada duas horas uma mulher é assassinada. E você vai continuar rindo disso?

Púlpito Cristão | Apologética de dentro para fora!

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One response to this post.

  1. Posted by Silvia Laura dos Santos on outubro 26, 2011 at 10:19 pm

    Quando começa o zorra total, já mudo de canal, por pior que seja outro programa sempre será mais evoluído que o zorra total, foi de muito mal gosto, a pior das piadas que poderia ser transmitida na TV, se quem já teve um caso deste na família, sente-se constrangido, imagina quem já passou por isso, por duas vezes, com a diferença de 30 anos entre o primeiro e o segundo, no primeiro tinha 18 anos e no segundo já com 48 anos, e quando os dois foram de pessoas de total confiança da família, drogada e estuprada, onde o constrangimento, o medo, o sentimento de culpa, a indignação, o receio das piadinhas na delegacia, de só conseguir dormir depois de tomar sonífero, mas não ter a coragem de exagerar na dose e acordar decepcionada por ainda estar viva e dolorida como se tivesse quebrado pedra a noite inteira, a vontade de não acordar nunca mais e dormir com as mãos postas e chegar a manhã e ter a enorme decepção de ainda estar viva, e chorar … e chorar … e chorar por ainda estar viva e lembrar o fato todos os segundos de sua vida, e chegar o dia em que percebe que não adianta, Deus acha que ainda não é a tua hora e te deixa viver e vc cria coragem, pelo teu filho, pelo teu neto e vai na delegacia, faz um BO e eles dizem que não podem fazer nada pois já se passaram mais de seis meses, e vc sente culpa por ter um estuprador solto a algumas quadras de tua casa por vc ter sido covarde pensando nos teus descendentes e ascendentes, pois ele fazia parte de tua família, dizem que é a tua palavra contra a dele, e ele confessa na frente de teu filho e da própria esposa, confirmando assim que vc é a vítima. E agora depois de alguns anos, vc ainda chora, mas tem que se calar para não influenciar teu filho a fazer justiça com as próprias mãos e estragar a vida dele, da esposa e do filho, vc chorar, mas ao chegar alguém vc sorri e diz: – tudo tranquilo – isso já se tornou um bordão diário na tua vida. Por isso viro as costas para qualquer pessoa que faz do estupro uma piada, ou um comentário de mal gosto. Só agradeço a Deus pelo filho, nora e neto maravilhosos que tenho e uma amiga fantástica que é muito mais que uma irmã, devo minha lucidez a ela, obrigada Carmen, que Deus te abençoe sempre.

    Resposta

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