ARTIGO – Deus é brasileiro?


 

Deus é brasileiro?

Edgard Steffen

Notícia publicada na edição de 15/01/2011 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 2 do caderno A

Seriam obreiros livres, mas tinham que assinar contratos e pagar a travessia do Atlântico. Traziam, na bagagem física, a Bíblia Sagrada; nos corações e mentes, a Reforma

Somos, na vida, a síntese apurada de tudo que passou antes de nós. Sou a competição cristalizada da história milenar de meus avós.” (Raul de Leoni Poeta e filósofo)

Os que têm paciência em me acompanhar perceberam que andei reciclando matéria publicada neste jornal e no meu livro. Fi-lo porque qui-lo, diria Jânio Quadros. Nem sei, ao menos, se Jânio usou esta horrorosa construção ou se é piada com o preciosismo da fala janista; nem mesmo sei se o “fi-lo porque qui-lo” cabe dentro da inculta e bela.

A verdade é que me concedi férias. Beirando os 80, caçula de uma geração, hoje, reduzida a seis pessoas, estou ocupado em um projeto para resgatar, se não a história, pelo menos acontecimentos pontuais da vida de meus antepassados. Ousaram cruzar o Atlântico para tentar futuro melhor. Senti-me na obrigação de transcrever histórias e estórias, ouvidas dos que os conheceram.

Vieram da Alemanha (os Steffen, os Fahl e os Emcke), da Suíça (os Krähenbühl) e da Suécia (os Magnusson) para substituir mão-de-obra escrava nas fazendas dos barões do café. O Movimento Abolicionista já conseguira vitórias, a Marinha Inglesa vigiava e combatia o tráfico de escravos, mas os cafeeiros continuavam carentes de braços para as lides.

No Século XIX, a Europa sepultou, em definitivo, resíduos do feudalismo e iniciou a mecanização do trabalho. Substituiu artesãos por incipientes oficinas coletivas. Como resultado, sobrava mão-de-obra e faltava comida. Atraídos por cartazes estimuladores de migrações, muitos europeus pobres vieram para o Brasil. Seriam obreiros livres, mas tinham que assinar contratos e pagar a travessia do Atlântico. Traziam, na bagagem física, a Bíblia Sagrada; nos corações e mentes, a Reforma.

Meus antepassados, todos de confissão luterana, vieram para a Fazenda Sete Quedas, pertencente ao Visconde de Indaiatuba. Durante anos, trabalharam de sol a sol, até amealharem o suficiente para alforria: pagamento da viagem e aquisição de terras próprias. Acabaram por morar em pequenos sítios, formando um bairro no município de Campinas (SP) ao qual deram o nome Friedburg (Castelo da Paz), aportuguesado Friburgo.

Como na Constituição do II Império havia Religião Oficial, não puderam construir nada que parecesse igreja (torre, cruz, sinos, e outros símbolos). Construíram salão. A um só tempo, escola para os filhos, templo para cultos e espaço para festas.

Problemão era enterrar seus mortos. Tinham de transportá-los, cerca de 30 km, para local permitido, carregando-os, a braço ou em toscas carroças, por estradas e trilhas muito precárias. Em 1881, pleitearam a construção de um cemitério, o que lhes foi negado pelo governo provincial, com o despacho: “Com o dinheiro que vocês gastam para construir um cemitério, vocês podem e devem, concertar a estrada, assim, vocês mesmos podem resolver o seu problema”*. Liderados por meus bisavôs Sammuel e Hans, auxiliados pelo vereador republicano, Dr. Bento Quirino dos Santos, os colonos entraram na luta. Depois de muitas demarches, a construção foi permitida. Iniciada em 1884 e terminada em junho de 1885, somente conseguiram inaugurá-la, com a presença do vigário e devida autorização do bispo, em fevereiro de 1886. Para quem gosta de piada sobre sogras, a primeira sepultada foi a sogra de meu bisavô. Antes de qualquer mau juízo, a mulher de Sammuel Krähenbühl faleceu “de causas naturais”.

A Proclamação da República iria separar Igreja e Estado. Com a separação, liberdade de culto. Pensava nisto quando li três notícias independentes: Suspenso o apedrejamento de Shakine, mulher iraniana adúltera; atirador mata 6 pessoas e fere a deputada Gabrielle Giffords, em Tucson (Arizona); Dilma ordena que se retire o Crucifixo e a Bíblia de seu Gabinete.

Ações fundamentalistas – tanto na República dos Aiatolás, que dilapida adúlteras, como na Democracia Americana, em que dão tiros em deputada, lutadora por sistema de saúde mais justo – revelam barbárie insuportável.

Tudo bem que só ingênuos e humoristas levem a sério o bordão “Deus é brasileiro!”. Mas nosso País ainda se inclui entre os países cristãos. A Velha República separou o Estado da Igreja. Na República atual, o poder de plantão, simbolicamente, separa Deus do Estado. Deus de quase todos os brasileiros que, democraticamente, votaram nos atuais detentores do poder político.

(*) Krähenbühl, W. Friedburg Castelo da Paz edição própria, pág. 32, 1992.

Edgar Steffen é médico pediatra (edgard.steffen@gmail.com)

Jornal Cruzeiro do Sul – ARTIGO – Deus é brasileiro?

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