Credos e Confissões da fé Cristã 2 – Confissão Belga


CONFISSÃO BELGA
 
Artigo 1 – O único Deus
Cremos todos com o coração e confessamos com a boca que há um único e simples ser espiritual, a quem chamamos Deus: eterno, insondável, invisível, imutável, infinito, onipotente, completamente sábio, justo e bom e uma fonte sobremodo abundante de todo o bem.
Artigo 2 – Como conhecemos a Deus
Conhecemos a Deus de duas maneiras. Primeiramente através da criação, manutenção e governo do mundo todo, pois este é aos nossos olhos como um livro maravilhoso, no qual todas as criaturas, grandes ou pequenas, são as letras que nos mostram o que dele não pode ser visto, a saber, o seu eterno poder e divindade, conforme o apóstolo Paulo diz em Romanos 1.20. Todas estas coisas são suficientes para convencer as pessoas e tirar-lhes toda desculpa.
Em segundo lugar e de forma ainda mais clara e completa, Ele se nos dá a conhecer através da sua santa e divina palavra, tanto quanto isto é necessário para nós nesta vida para a sua glória e para a salvação dos seus.
Artigo 3 – A Palavra de Deus
Confessamos que esta Palavra de Deus não foi dada por vontade humana, mas que homens falaram da parte de Deus movidos pelo Espírito Santo, conforme Pedro diz em 2 Pedro 1.21. Após isto Deus, em seu cuidado especial por nós e nossa salvação, mandou que seus servos, os profetas e apóstolos, escrevessem a sua palavra revelada e Ele próprio escreveu com o seu dedo as duas tábuas da lei. Por esta razão chamamos a tais escritos divinas Escrituras Sagradas.
Artigo 4 – Os Livros Canônicos das Escrituras Sagradas
Entendemos como Escrituras Sagradas as duas partes, o Antigo e o Novo Testamento; estes são os livros canônicos, contra os quais não há objeção de qualquer espécie.
A igreja de Deus reco-nhece os seguintes, entre aqueles do Antigo Testa-mento: os cinco livros de Moisés, a saber, Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio; Josué, Juízes, Rute, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis, 1 e 2 Crônicas, Esdras, Neemias, Ester, Jó, os Salmos de Davi, os três livros de Salomão, a saber, Provérbios, Eclesiastes e Cantares; os quatro profetas maiores, Isaías, Jeremias (inclusive as Lamentações de Jeremias), Ezequiel e Daniel; e a seguir os doze profetas menores: Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias.
Os livros do Novo Testa-mento: os quatro Evangelistas Mateus, Marcos, Lucas, João; os Atos dos Apóstolos; as quatorze epístolas do apóstolo Paulo, a saber, aos Romanos, duas aos Coríntios, aos Gálatas, aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses, duas aos Tessalonicenses, duas a Timóteo, a Tito, a Filemom, aos Hebreus; as sete epístolas dos outros apóstolos, a saber, a epístola de Tiago, duas
de Pedro, três de João, a epístola de Judas; o Apocalipse do apóstolo João.
Artigo 5 – A autoridade das Escrituras Sagradas
Aceitamos todos estes livros, e apenas estes, como sagrados e canônicos para dirigir, fundamentar a nossa fé. E cremos, sem duvidar, em tudo o que neles está escrito e não tanto porque a igreja os aceita e reconhece como tais, mas sobretudo porque o Espírito Santo testifica em nossos corações que eles são de Deus .
Possuem estes livros também a prova disto em si, pois mesmo cegos podem tatear que as coisas neles preditas acontecem.
Artigo 6 – A distinção entre os livros canônicos e apócrifos
Distinguimos estes livros sagrados dos apócrifos, a saber, o terceiro e quarto livros de Esdras (*), o livro de Tobias, Judite, a Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Baruc, as adições ao livro de Ester, o Cântico dos Três Jovens, a História de Susana, Bel e o Dragão, a Oração de Manassés e os dois livros dos Macabeus.
A igreja pode lê-los e tirar deles ensino na medida em que há concordância destes com os livros canônicos, porém não possuem força e autoridade tais que pelo testemunho deles se pudesse confirmar algum artigo da fé ou da religião cristã e muito menos que pudessem diminuir a autoridade dos outros livros sagrados.
Artigo 7 – A perfeição das Escrituras Sagradas
Cremos que estas Escrituras Sagradas contêm plenamente a vontade de Deus e que tudo que o homem deve crer para ser salvo nelas está suficientemente ensinado.
Visto que toda a forma de culto que Deus nos exige está nelas amplamente descrita, não é permitido aos homens, mesmo que fossem apóstolos, ensinar de outra forma do que nos ensinam as Escrituras Sagradas e até mesmo se fosse um anjo vindo do céu, como o apóstolo Paulo diz em Gálatas 1.8. É proibido acrescentar ou tirar qualquer coisa da palavra de Deus ( Dt. 12.32 ), manifestando-se assim que o que nela se ensina é perfeitíssimo e completo em todos os sentidos.
Também não se pode equiparar escrituras de homens, por mais santos que tenham sido, às Escrituras divinas, nem o costume à verdade de Deus – pois a verdade está acima de tudo – e nem considerar o grande número, a antiguidade, a sucessão ininterrupta de tempos ou de pessoas, ou concílios, decretos e resoluções. Pois todos os homens são em si mentirosos e mais leves que um sopro (*).
Por isso, rejeitamos sinceramente tudo aquilo que não concorde com esta regra infalível, segundo os apóstolos nos ensinaram: provai os espíritos se procedem de Deus (1 Jo 4.1). E ainda: se alguém vem ter convosco e não traz esta doutrina, não o recebais em casa (2 Jo 1.10).
Artigo 8 – A Santíssima Trindade
Segundo esta verdade e esta Palavra de Deus, cremos num único Deus, Ser único no qual há três Pessoas que desde a eternidade estão de fato e verdadeiramente distintas quanto aos seus atributos incomunicáveis, a saber, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
O Pai é a causa, a origem e o princípio de todas as coisas, tanto as visíveis quanto as invisíveis. O Filho é o Verbo, a sabedoria e a imagem do Pai. O Espírito Santo é a força e o poder eternos que procedem do Pai e do Filho.
Esta distinção não implica no entanto que Deus está dividido em três partes, visto que as Escrituras nos ensinam que o Pai e o Filho e o Espírito Santo existem cada um por Si próprio com seus atributos distintos, mas de tal forma que estas três Pessoas são apenas um único Deus. Está claro, portanto, que o Pai não é o Filho e o Filho não é o Pai; da mesma forma, que o Espírito Santo não é o Pai nem o Filho. Entretanto, estas Pessoas, assim distintas, não estão divididas nem confundidas.

Pois o Pai não se fez carne nem tampouco o Espírito Santo, mas apenas o Filho. O Pai nunca esteve sem o seu Filho nem sem o seu Espírito Santo, pois Eles são os três da mesma eternidade num mesmo ser. Não há primeiro ou último, pois Eles são os três Um só em verdade, em poder, em bondade e misericórdia.

Artigo 9 – O testemunho das Escrituras a respeito desta doutrina.
Sabemos tudo isto tanto através do testemunho das Escrituras Sagradas como pelas ações destas Pessoas, principalmente aquelas que sentimos em nós. Os teste-munhos das Sagradas Escrituras que nos ensinam a crer nesta Santíssima Trindade, estão escritos em muitas passagens do Antigo Testamento e não será necessário enumerá-las todas mas apenas escolhê-las criteriosamente.
Em Gênesis 1.26,27 Deus diz: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança, etc. Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, homem e mulher os criou. Da mesma forma, em Gênesis 3.22: Eis que o homem se tornou como um de Nós. Isto demonstra que há mais de uma Pessoa na Divindade, pois Ele diz: Façamos o homem à nossa imagem, indicando a seguir a unidade quando diz: Deus criou. É verdade que Ele não diz quantas Pessoas há, mas o que para nós permanece um tanto obscuro no Antigo Testamento, torna-se muito claro no Novo. Pois quando o nosso Senhor foi batizado no Jordão, ouviu-se a voz do Pai, dizendo: Este é o meu Filho amado (Mt 3.17); o Filho foi visto na água e o Espírito Santo se revelou na forma de uma pomba.
Além disto, Cristo instituiu para o batismo de todos os que crêem esta forma: Batizai todas as nações em nome do Pai e do filho e do Espírito Santo (Mt 28.19). No evangelho segundo Lucas, o anjo Gabriel fala a Maria, mãe do Senhor, da seguinte forma: Descerá sobre ti, o Espírito Santo e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso também o ente santo que há de nascer, será chamado filho de Deus (Lc. 1.35). Também: a graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós (2 Co 13.13).
E: Pois há três que dão testemunho no céu: o Pai, a Palavra, e o Espírito Santo; e estes três são um (1 Jo 5.7). Em todas estas passagens nos é claramente ensinado que existem três Pessoas em um único Ser divino. E se bem que esta doutrina ultrapasse em muito o entendimento humano, nós a cremos agora baseados na Palavra, aguardando o gozo do seu pleno conhecimento e fruto no céu.
Além disso, devemos atentar também na ação particular de cada uma dessas três Pessoas para conosco: o Pai é chamado o nosso Criador pela sua força; o Filho é o nosso Salvador e Redentor pelo seu sangue; o Espírito Santo é o nosso Santificador porque habita em nossos corações.
Esta doutrina da Santíssima Trindade sempre tem sido mantida na verdadeira Igreja, desde os tempos dos apóstolos até hoje, diante dos judeus, muçulmanos, falsos cristãos e hereges, tais como Marcião, Mani, Praxéias, Sabélio, Paulo de Samosata, Ário e outros, que foram condenados com razão pelos santos pais. Por isto, aceitamos nesta matéria de bom grado as três confissões de fé, a saber, o Credo Apostólico, o Niceno e o Atanasiano, bem como o que os pais estabeleceram em concordância com estas confissões.
Artigo 10 – A divindade de Jesus Cristo
Cremos que Jesus Cristo, segundo sua natureza divina, é o Filho unigênito de Deus, gerado desde a eternidade, não feito nem criado – pois então seria uma criatura – mas de uma só substância como o Pai, co-eterno, a expressão exata do ser do Pai e o resplendor da sua glória (Hb. 1.3), igual a Ele em tudo (Fp 2.6). Ele é o Filho de Deus, não somente desde que Ele assumiu nossa natureza, mas desde toda a eternidade, segundo os seguintes testemunhos nos ensinam ao serem comparados entre si.
Moisés diz que Deus criou o mundo (Gn 1.1) e São João diz que todas as coisas foram criadas por intermédio do Verbo, a quem ele chama Deus (Jo 1.3); o apóstolo diz que Deus criou o mundo pelo seu Filho (Hb 1.2) e ainda que Deus criou todas as coisas por Jesus Cristo (Cl 1.16). Portanto Ele, que é chamado Deus, o Verbo, o Filho e Jesus Cristo, já deve ter existido quando todas as coisas foram por Ele criadas. O profeta Miquéias diz portanto: suas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade (Mq 5.2). E o apóstolo: Ele não teve princípio de dias, nem fim de existência (Hb 7.3). Assim Ele é o verdadeiro e eterno Deus, o Todo-poderoso, a quem invocamos, adoramos e servimos.
Artigo 11 – A divindade do Espírito Santo
Cremos e confessamos que o Espírito Santo procede desde a eternidade do Pai e do Filho. Ele não foi feito ou criado e tampouco gerado, mas apenas procede de ambos.
Quanto à ordem, Ele é a terceira Pessoa da Trindade, de uma mesma substância, majestade e glória que o Pai e o Filho, verdadeiro e eterno Deus, segundo as Sagradas Escrituras nos ensinam.
Artigo 12 – A criação do mundo e os anjos
Cremos que o Pai, através da sua Palavra, isto é, do seu Filho, criou o céu, a terra e todas as criaturas a partir do nada quando Lhe aprouve, dando a cada uma das criaturas o seu ser e sua forma e aparência e a cada uma a sua própria função para servir ao seu Criador.
Cremos que Ele também as mantém e governa ainda agora a todas elas segundo a sua providência eterna e pela sua força infinita, para que elas sirvam ao homem, a fim de que o homem sirva ao seu Deus. Ele criou também os anjos como seres bons para serem seus mensageiros e para servirem aos seus eleitos. Deste estado sublime no qual Deus os criara, alguns destes anjos caíram na eterna perdição, mas os outros perseveraram pela graça de Deus e permaneceram em seu estado original.
Os diabos e os demônios são de tal modo corrompidos que são inimigos de Deus e de todo o bem. Com todas as suas forças espreitam a Igreja e cada um dos seus membros feitos salteadores para arrasar e destruir tudo através de ardis e falsidades. Por isso estão condenados pela sua própria maldade para a condenação eterna, aguardando diariamente suas terríveis torturas. E quanto a isto, abominaremos os erros dos saduceus, que negam a existência de espíritos e anjos, e também o erro dos maniqueístas que afirmam que os diabos se originaram por si próprios e são maus por natureza e não que se tornaram corrompidos.
Artigo 13 – A providência divina
Cremos que este bom Deus, após ter criado todas as coisas, não as deixou entregues a si mesmas ou as abandonou ao acaso ou à sua sorte, mas as dirige e governa segundo a sua santa vontade e de tal forma que nada neste mundo acontece sem a sua determinação. Todavia, Deus não é o autor nem o culpado do pecado que se faz. Pois o seu poder e bondade são tão grandes e inconcebíveis que Ele determina e executa a sua obra sobremodo bem e justo, mesmo que os diabos e ímpios ajam injustamente.
E aquilo que Ele faz além da compreensão do entendimento humano, não queremos investigar curiosamente além do alcance da nossa compreensão. Mas adoramos com toda a humildade e reverência os justos juízos de Deus que nos estão ocultos e nos damos por satisfeitos por sermos discípulos de Cristo, para apenas aprender aquilo que Ele nos ensina através da sua Palavra, sem que ultrapassemos estes limites.
Esta doutrina nos oferece consolo indizível quando através dela aprendemos que nada nos poderá acontecer por acaso, mas apenas pela determinação do nosso bondoso Pai celeste. Ele vela por nós com cuidado paternal enquanto governa de tal forma todas as criaturas que nenhum fio de cabelo cairá da nossa cabeça – pois todos eles estão contados – e nenhum pardalzinho cairá por terra sem a vontade de nosso Pai (Mt 10.29,30). Confiamos nisto pois sabemos que Ele refreia os diabos e todos os nossos inimigos e que eles não nos podem prejudicar sem a sua permissão e vontade.
Por isso rejeitamos o erro abominável dos epicureus que dizem que Deus não se envolve com nada e que Ele deixa tudo ao acaso.
Artigo 14 – A criação do homem; a queda e suas conseqüências
Cremos que Deus criou o homem do pó da terra e o fez e formou segundo a sua imagem e semelhança: bom, justo e santo, de tal forma que com a sua vontade podia corresponder em tudo com a vontade de Deus. Porém quando o homem estava naquele estado sublime, ele não o compreendeu nem reconheceu a sua posição privilegiada mas se subjugou conscientemente ao pecado e conseqüentemente à morte e à maldição, dando ouvidos às palavras do diabo.

Porque o mandamento da vida que recebera, o homem o transgrediu e pelo pecado se desgarrou de Deus, que era a sua vida verdadeira. Assim, corrompeu toda a sua natureza e mereceu desta forma a morte física e espiritual. Como se tornou ímpio, errado e corrupto em todo seu modo de viver, o homem perdeu todos os excelentes dons que recebera de Deus. Não lhe restou nada disso a não ser débeis traços que, no entanto, são suficientes para tirar-lhe toda desculpa.

Toda a luz em nós se transformou em escuridão, segundo nos ensinam as Escrituras: a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela (Jo 1.5), onde João chama os homens de trevas. Por isso, rejeitamos tudo aquilo que se ensina contrariamente a respeito do livre arbítrio do homem, visto que o homem nada mais é que um escravo do pecado e não pode receber coisa alguma se do céu não lhe for dada (Jo 3.27). Pois quem se vangloriará de poder fazer algo de bom por força própria, visto que Cristo diz: Ninguém pode vir a Mim se o Pai que Me enviou não o trouxer (Jo 6.44)?

Quem se gabará da sua própria vontade quando sabe que o pendor da carne é inimizade contra Deus (Rm 8.7)? Quem fará menção do seu próprio conhecimento quando entende que o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus (1 Co 2.14)? Resumindo, quem irá apresentar um único pensamento sequer quando sabe que por nós mesmos não somos capazes de pensar alguma coisa, mas que a nossa capacidade vem de Deus (2 Co 3.5)?

Por esta razão a palavra do apóstolo deve permanecer inabalável para nós, que Deus é quem efetua em nós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade (Fp 2.13). Pois não há conhecimento ou vontade que esteja de acordo com os de Deus, que Cristo não operasse no homem, segundo ele nos ensina com as palavras: sem Mim nada podeis fazer (Jo 15.5).
Artigo 15 – O pecado original
Cremos que pela desobediência de Adão o pecado original se propagou por toda a raça humana; é uma corrupção de toda a natureza e um mal hereditário com o qual mesmo os pequenos no ventre materno já estão contaminados e que é a raiz da qual brotam todas as espécies de pecados do homem. Por esta razão o pecado original é tão terrível e abominável para Deus, que se constitui motivo suficiente para condenar a raça humana.
Ele não é totalmente anulado ou extirpado pelo batismo, visto que o pecado sempre jorra desta corrupção como água que mana de uma fonte venenosa. Aos filhos de Deus, no entanto, ele não é levado em conta para sua condenação, mas lhes é perdoado pela sua graça e misericórdia, não para que durmam tranqüilamente no pecado mas para que aqueles que crêem, conscientes desta corrupção, gemam muitas vezes aspirando a libertação do corpo, o qual está no poder da morte (Rm 7.24). Com isso rejeitamos o erro dos pelagianos que dizem que este pecado se origina apenas pela imitação.
Artigo 16 – A predestinação divina
Cremos que, quando toda a raça humana se lançara na corrupção e perdição através do pecado do primeiro homem, Deus se mostrou como é, misericordioso e justo. Misericordioso, por retirar e salvar desta corrupção aqueles que Ele em seu eterno e imutável conselho e por mera bondade escolheu em Jesus Cristo, nosso Senhor, sem levar em consideração qualquer das suas obras. Justo por deixar os outros na queda e na corrupção, nas quais eles mesmos se lançaram.
Artigo 17 – O Redentor prometido por Deus
Cremos que o nosso bondoso Deus, ao ver que o homem se lançara assim na morte física e espiritual e se tornara completamente desgraçado, veio pessoalmente buscar o homem em sua maravilhosa sabedoria e bondade quando este havia de nascer de mulher (Gl 4.4) para esmagar a cabaça da serpente (Gn 3.15) e para tornar bem-aventurado o homem.
Artigo 18 – A Humanação do Filho de Deus
Confessamos, pois, que a promessa que Deus fizera aos pais pela boca dos seus santos profetas, Ele a cumpriu, enviando ao mundo o seu próprio unigênito e eterno Filho, no tempo por Ele determinado. Este assumiu a forma de servo tornando-se semelhante aos homens (Fp 2.7) ao tomar realmente uma verdadeira natureza humana com todas as suas fraquezas, porém sem pecado.

Foi concebido no ventre da bem-aventurada virgem Maria pelo poder do Espírito Santo, sem intervenção de um homem. Não apenas assumiu a natureza humana quanto ao aspecto físico mas também uma alma verdadeiramente humana para se tornar realmente homem. Pois estando a alma tão perdida quanto o corpo, Ele teve que assumir ambos para salvar a ambos.

Em oposição à heresia dos anabatistas, os quais negam que Cristo assumiu um corpo humano de sua mãe, confessamos portanto que Ele participou da carne e sangue dos filhos (Hb 2.14), que Ele é descendente de Davi (At 2.30) segundo a carne (Rm 1.3), fruto do ventre de Maria (Lc 1.42), nascido de mulher (Gl 4.4), renovo de Davi (Jr 33.15), rebento do tronco de Jessé (Is 11.1), procedente de Judá (Hb 7.14), descendente dos judeus segundo a carne (Rm 9.5): da descendência de Abraão, visto que assumiu a descendência de Abraão, tornando-se semelhante aos irmãos em todas as coisas, mas sem pecado (Hb 2.17 e 4.15). assim, Ele verdadeiramente é o nosso Emanuel, isto é, Deus conosco (Mt 1.23).
Artigo 19 – As duas naturezas de Cristo
Cremos que por esta concepção a Pessoa do Filho está inseparavelmente unida e ligada à natureza humana, de forma que não existem dois filhos de Deus, nem duas pessoas, mas duas naturezas unidas numa Pessoa, conservando cada natureza as suas propriedades distintas.

Da mesma forma que a natureza divina sempre permaneceu incriada, sem princípios de dias ou fim de existência (Hb 7.3), enchendo a terra e o céu, assim também a natureza humana não perdeu suas propriedades, permanecendo criatura, a qual tem princípio de dias, é finita e conserva tudo o que é próprio de um verdadeiro corpo. E ainda que, por meio da sua ressurreição, tenha lhe concedido imortalidade, Ele não modificou a realidade da sua natureza humana, uma vez que a nossa salvação e a nossa ressurreição dependem também da realidade do seu corpo.

Mas estas duas naturezas estão de tal forma unidas em uma Pessoa, que mesmo por sua morte não foram separadas. Assim aquilo que Ele, morrendo, entregou nas mãos do seu Pai, era um espírito verdadeiramente humano, que deixou seu corpo, mas ao mesmo tempo a natureza divina permaneceu sempre unida com a humana, também quando Ele jazia no sepulcro.

A Divindade não cessou de estar nEle, da mesma forma que estava nEle quando era menino, embora não se manifestasse por curto espaço de tempo. Por isso confessamos que Ele é verdadeiro Deus e verdadeiro homem; verdadeiro Deus para vencer a morte por sua força e verdadeiro homem para poder morrer por nós na fraqueza da sua carne.

Artigo 20 – A justiça e misericórdia de Deus na reconciliação
Cremos que Deus, que é completamente misericordioso e justo, enviou o seu Filho para que assumisse a natureza na qual se cometera a desobediência e nela oferecer satisfação e suportar o castigo pelos pecados através do seu sofrimento e morte extremamente amargos. Assim Deus manifestou a sua justiça contra o seu Filho, colocando sobre Ele o fardo dos nossos pecados, e derramou a sua bondade e misericórdia sobre nós , que éramos culpados e merecedores da maldição eterna, entregando em perfeito amor seu Filho à morte por nós e ressuscitando-O por ca-usa da nossa justificação, para que tivéssemos imortalidade e vida eterna através dEle.
Artigo 21 – A reconciliação por Cristo
Cremos que Jesus Cristo é um eterno Sumo Sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque, o que Deus confirmou com juramento (Hb 7.21). Ele Se pôs a Si mesmo perante seu Pai em nosso nome para aplacar a sua ira com perfeita expiação, oferecendo-Se a Si mesmo como sacrifício na cruz e derramando seu precioso sangue para a purificação dos nossos pecados, segundo os profetas predisseram.

Pois está escrito que o castigo que nos traz a paz estava sobre o Filho de Deus e que pelas suas pisaduras fomos sarados; que como cordeiro foi levado ao matadouro e foi contado com os transgressores (Is 53.5,7,12), e como criminoso foi condenado por Pôncio Pilatos, embora este O tivesse declarado inocente. Assim Ele restituiu o que não furtara (Sl 69.4) e sendo justo sofreu pelos injustos (1 Pe 3.18); e isto tanto em seu corpo como em sua alma, de forma que Ele sentia o terrível castigo que nós merecíamos pelos nossos pecados e o seu suor se tornava como gotas de sangue caindo sobre a terra (Lc 22.44).

Ele clamou: Deus meu, Deus meu, por que Me desamparaste? (Mt 27.46) e sofreu tudo isto por causa do perdão dos nossos pecados. Por isso fazemos com razão nossas as palavras de Paulo, que nada sabemos senão a Jesus Cristo, e este crucificado (1 Co 2.2), e consideramos todas as coisas como refugo, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, nosso Senhor (Fp 3.8).

Em seus ferimentos encontramos todo o consolo e não necessitamos procurar ou conceber qualquer outro meio para nos reconciliar com deus além deste único sacrifício, oferecido uma vez por todas, e que aperfeiçoa para sempre os que crêem (Hb 10.14). Essa também é a razão por que o anjo de Deus chamou-O Jesus, isto é, Salvador, porque Ele salvaria o seu povo dos pecados deles (Mt 1.21).

Artigo 22 – A justificação pela fé
Cremos que o Espírito Santo, para nós recebermos o verdadeiro conhecimento deste grande mistério, acende em nossos corações uma fé verdadeira, que abraça Jesus Cristo com todos os seus méritos, apropriando-se dEle e não buscando mais nada além dEle. Pois há apenas duas alternativas: ou em Jesus não há tudo que é necessário para a nossa salvação, ou então tudo isso existe realmente nEle de forma que a pessoa que possui a Jesus Cristo pela fé, tem a completa salvação. Afirmar que Cristo não é suficiente e que além dEle necessitamos de algo mais, é uma blasfêmia abominável, pois resultaria, assim, que Cristo é apenas meio Salvador.
Por isso e com razão fazemos nossas as palavras de Paulo, que somos justificados apenas pela fé ou pela fé independentemente das obras (Rm 3.28). Porém, para nos expressar corretamente, não queremos dizer que a própria fé nos salve, pois é apenas um meio com o qual abraçamos Cristo, nossa justiça.

Mas Jesus Cristo é a nossa justiça, pois Ele nos atribui todos os seus méritos e suas obras que Ele fez por nós e em nosso lugar; e a fé é o meio que nos mantém unidos a Ele na comunhão de todos os seus tesouros e dons. Quando estes se tornaram nossos, são mais do que suficientes para nos absolver dos pecados.

Artigo 23 – Nossa justiça perante Deus
Cremos que a nossa bem-aventurança está no perdão dos nossos pecados por causa de Jesus Cristo e que nisto consiste a nossa justiça perante Deus. Assim nos ensinam Davi e Paulo quando declaram: Bem-aventurado o homem a quem Deus atribui a justiça, independentemente de obras (Sl 32.2, Rm 4.6). E o mesmo apóstolo diz que somos justificados gratuitamente, ou seja, pela graça, mediante a redenção que há em Jesus Cristo (Rm 3.24).
Por isso perseveramos neste fundamento, dando toda a glória a Deus e nos humilhando e confessando o que somos, sem nos vangloriarmos em nada de nós mesmos ou dos nossos méritos, mas nos apoiamos e descansamos somente na obediência do Cristo crucificado. Esta obediência é nossa ao crermos nEle e é o suficiente para cobrir todas as nossas iniqüidades, nos dar certeza e libertar a consciência de temor, espanto e terror, de forma que nos aproximamos de Deus sem fazer como o nosso primeiro pai Adão que, tremendo, tentava se cobrir com folhas de figueira.

De fato, caso tivéssemos que aparecer diante de Deus, apoiando-nos, por pouco que fosse, em nós mesmos ou em qualquer outra criatura, ai de nós, pois pereceríamos. Por isso cada um de nós deve fazer suas as palavras de Davi: Ó Senhor, não entres em juízo com o teu servo, porque à tua vista não há justo nenhum vivendo (Sl 143.2).

Artigo 24 – Santificação e boas obras
Cremos que esta verdadeira fé, gerada no homem pela pregação da Palavra de Deus e pela atuação do Espírito Santo, o faz renascer e o torna novo homem; faz vivê-lo, vida nova e o liberta da escravidão do pecado. Por isso, é impossível que esta fé justificadora faça os homens indiferentes a uma vida piedosa e santa.
Pelo contrário, sem esta fé eles nunca farão qualquer coisa por amor a Deus, mas apenas por amor deles próprios e pelo temor de serem condenado. É, portanto, impossível que esta fé seja inoperante no homem, pois não falamos de uma fé estéril, mas de uma fé da qual as escrituras dizem, que atua pelo amor (Gl 5.6), e que leva o homem a se exercitar nas obras as quais Deus ordenou em sua palavra; estas obras, quando brotam da boa raiz da fé, são boas e agradáveis a Deus, visto que são todas santificadas pela sua graça. entretanto, não valem para a nossa justificação, pois pela fé em Cristo somos justificados, mesmo antes de nós fazermos boas obras.
Caso contrário, não poderiam ser boas, da mesma forma que o fruto de uma árvore não pode ser bom se antes a árvore não for boa. Fazemos, pois, boas obras, mas não por mérito, pois que méritos conseguiríamos? Somos antes devedores de Deus pelas boas obras que fazemos, e não eEle devedor de nós. Porque Ele é quem efetua em nós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade (Fp 2.13). Por isso, prestemos atenção naquilo que está escrito: Assim também vós, depois de haverdes feito quanto vos foi ordenado, dizei: somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer (Lc 17.10).
Não queremos negar que Deus recompensa as boas obras, mas pela sua graça ele coroa seus dons. E ainda, mesmo que façamos boas obras, não fazemos destas o fundamento da nossa salvação, pois não podemos fazer obra alguma que não seja maculada pela nossa natureza pecaminosa e merecedora de castigo. Ainda que pudéssemos apresentar uma só boa obra, um pensamento pecaminoso nela é o suficiente para torná-la reprovável aos olhos de Deus. Desta forma estaríamos sempre em dúvida, agitados sem qualquer certeza, e as nossas pobres consciências seriam sempre atormentadas, caso não se apoiassem no mérito do sofrimento e morte do nosso Salvador.
Artigo 25 – A lei cumprida em Cristo
Cremos que as cerimônias e prefigurações da lei terminaram com a vinda de Cristo e que chegou o fim para todas as sombras, de forma que o seu uso deve ser abolido entre os cristãos. Entretanto, as suas verdades e o seu conteúdo permanecem para nós em Cristo Jesus, no qual foram cumpridas. E ainda usamos os testemunhos da Lei e dos Profetas para confirmar a nossa fé no Evangelho e também para dirigir as nossas vidas em toda a decência para a glória de Deus e conforme a sua vontade.
Artigo 26 – Cristo, o nosso Advogado
Cremos que não temos acesso a Deus a não ser através do único Mediador e Advogado, Jesus Cristo, o justo. Ele se tornou homem e uniu as naturezas divinas e humana, para que nós homens tivéssemos acesso à majestade divina, pois, de outra forma, o acesso estaria vedado para nós. Porém, este Mediador, que o Pai constituiu entre si e nós, não deve assustar-nos devido a sua grandeza, fazendo com que procurássemos um outro conforme bem entendêssemos.

Pois não há ninguém no céu ou na terra entre as criaturas que mais nos ame que Jesus Cristo que, embora subsistindo em forma de Deus, a Si mesmo Se esvaziou, assumindo a forma de servo para nós, e em todas as coisas Se tornou semelhante aos irmãos (Fp 2.6,7; Hb 2.17). Caso tivéssemos que buscar outro intercessor que nos fosse favorável, quem encontraríamos que mais nos amasse que Ele, que deu sua vida por nós, ainda quando nós éramos inimigos (Rm 5.8,10)? E caso busquemos alguém que tenha poder e honra, quem os teria tanto quanto Ele, que está sentado à direita do seu Pai e que detém toda a autoridade no céu e na terra (Mt 28.18)?

E quem será ouvido antes que o próprio Filho amado de Deus? Portanto, é apenas desconfiança que levou ao costume de desonrar os santos em vez de honrá-los, pois faz-se o que estes nunca fizeram ou desejaram mas rejeitaram constantemente conforme era seu dever, segundo mostram os seus escritos. Não se deve alegar que somos indignos, pois de forma alguma apresentamos as nossas orações a Deus baseados em nossa dignidade, porém apenas pela excelência e dignidade do nosso Senhor Jesus Cristo, cuja justiça é nossa pela fé. Por isso o apóstolo nos diz, quando quer retirar de nós este temor tolo, ou melhor, esta desconfiança, que Jesus Cristo se tornou semelhante aos irmãos em todas as coisas, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus, e para fazer propiciação pelos pecados do povo. Pois naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados (Hb 2.17,18).
E depois, para encorajar-nos mais ainda vir a Ele, diz: Tendo pois, a Jesus, o Filho de Deus, como grande sumo sacerdote que penetrou os céus, conservemos firmes a nossa confissão. Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, antes foi Ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado. Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna (Hb 4.14-16). O mesmo apóstolo diz que temos intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus; aproximemo-nos, pois, em plena certeza de fé (Hb 10.19,22).
Da mesma forma: Cristo tem o seu sacerdócio imutável; por isso também pode salvar totalmente os que por Ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles (Hb 7.24,25).

O que nos falta então, se Cristo mesmo diz: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por Mim (Jo 14.6). Por que procuraríamos um outro advogado, visto que aprouve a Deus dar-nos seu Filho como Advogado? Não O abandonemos para tomar outro, ou melhor, para buscar outro sem nunca achá-lo; pois quando Deus O deu a nós, sabia perfeitamente que éramos pecadores. Por isso invocamos o Pai celeste por intermédio de Cristo, nosso único Mediador, conforme o mandamento de Cristo, segundo nos foi ensinado na oração dominical. E estamos certos que o Pai nos dará tudo o que Lhe pedirmos em nome de Cristo (Jo 16.23).

Artigo 27 – A Igreja católica ou universal
Cremos e confessamos uma única Igreja católica ou universal. Ela é uma santa congregação dos verdadeiros crentes em Cristo, que esperam toda a sua salvação de Jesus Cristo, tendo sido lavados pelo seu sangue, santificados e selados pelo Espírito Santo. Esta igreja tem existido desde o começo do mundo e existirá até o seu fim; pois Cristo é um Rei eterno, que não pode estar sem súditos. Esta santa Igreja é mantida por Deus contra o furor do mundo todo, embora às vezes seja diminuta por um tempo e aos olhos dos homens pareça que foi reduzida a nada.

Assim, durante a época perigosa sob Acabe, Deus guardou para si sete mil homens que não dobraram os joelhos diante de Baal. Esta santa Igreja também está situada, presa ou delimitada a um determinado lugar ou ligada a certas pessoas, mas está difundida e espalhada por todo o mundo e mesmo assim ajuntada e unida, sendo um só coração e uma só vontade, no mesmo Espírito, pelo poder da fé.

Artigo 28 – A comunhão com a Igreja
Visto que esta congregação santa é a reunião daqueles que serão salvos e que fora dela não há salvação, cremos que ninguém, independente de sua posição ou outras qualidades, pode se manter afastado dela e ser auto-suficiente. Mas todos deverão se ajuntar e se reunir a ela para guardar a unidade da Igreja, subjugando-se ao seu ensino e disciplina, curvando suas cabeças sob o jugo de Jesus Cristo e servindo aos irmãos na edificação de sua fé segundo os dons concedidos por Deus a cada um, sendo todos juntos membros de um mesmo corpo.
Para observar melhor tudo isso, todos os que crêem devem se separar daqueles que não pertencem à Igreja, conforme a Palavra de Deus, e se unir a esta congregação em todo local onde Deus a tenha estabelecido, mesmo que as autoridades e as ordens dos reis se opusessem ou pesasse sobre isso a morte ou castigos físicos. Por isso, todos aqueles que se separam dela ou deixam de se unir a ela, agem contrariamente à ordem de Deus.
Artigo 29 – As marcas distintivas da verdadeira Igreja
Cremos que deve-se distinguir com grande cuidado e sabedoria qual é a verdadeira Igreja, baseando-se na palavra de Deus, visto que todas as seitas que existem atualmente no mundo, denominam-se injustamente igreja. Não falamos aqui dos hipócritas que se misturam entre os bons na Igreja sem, porém, pertencer à Igreja, embora fisicamente estejam nela. Mas queremos dizer que o corpo e a comunhão
da verdadeira Igreja devem ser distinguidos de todas as seitas que afirmam que são a Igreja.
As marcas distintivas pelas quais se reconhece a Igreja verdadeira, são estas: a Igreja realiza a pregação pura do evangelho; ela mantém a administração pura dos sacramentos segundo Cristo os instituiu; ela exerce a disciplina eclesiástica para castigar os pecadores; em suma, a igreja se orienta pela pura Palavra de Deus, rejeitando todas as coisas que conflitam com esta Palavra e reconhecendo Jesus Cristo como único Cabeça. Nisso se reconhece com certeza a verdadeira Igreja e ninguém tem o direito de se separar dela.
Quanto àqueles que pertencem à Igreja, podem ser reconhecidos pelas marcas distintivas dos cristãos, a saber, a fé e que, após terem aceito o único Salvador Jesus Cristo, fogem do pecado e perseguem a justiça, amam ao verdadeiro Deus e ao próximo, não se desviam para a direita ou para a esquerda e crucificam a carne com suas obras. Não como se neles já não existisse uma grande fraqueza, porém lutam contra ela todos os dias da sua vida, pelo Espírito, enquanto sempre buscam socorro no sangue, na morte, no sofrimento e na obediência do Senhor Jesus, no qual têm perdão dos pecados pela fé.
E quanto à falsa igreja: essa arroga a si mesma e às suas ordenações mais autoridade do que atribui à Palavra de Deus e não quer submeter-se ao jugo de Cristo; ela não administra os sacramentos segundo Cristo ordenou em sua Palavra, mas lhe acrescenta e lhe tira conforme bem entende; ela se fundamenta mais nos homens que em Cristo; ela persegue aqueles que vivem santamente segundo a Palavra de Deus e que a repreendem pelos seus pecados, amor ao dinheiro e idolatria.
Estas duas igrejas são facilmente reconhecíveis e distinguíveis.
Artigo 30 – O governo da Igreja
Cremos que esta verdadeira Igreja deve ser governada em consonância com a ordem espiritual que o nosso Senhor nos ensinou em sua Palavra, a saber, que deve haver ministros ou pastores para pregar a Palavra de Deus e administrar os sacramentos, e supervisores e diáconos, para que junto com os pastores formem o conselho da Igreja, e que assim mantenham a verdadeira religião e façam com que a verdadeira doutrina se propague, que os transgressores sejam repreendidos e refreados de forma espiritual e que os pobres e aflitos sejam auxiliados e consolados na medida que necessitem.
Desta forma todas as coisas na Igreja serão feitas com ordem ao se escolherem pessoas fiéis, conforme a regra dada por Paulo na epístola a Timóteo (1 Tm 3).
Artigo 31 – Os oficiais da Igreja
Cremos que os ministros da Palavra de Deus, os presbíteros e os diáconos devem ser indicados para os seus ofícios por meio da eleição legal pela Igreja, sob a invocação do nome de Deus e com ordem, conforme a Palavra de Deus ensina. Por esta razão cada um deve se guardar de insinuar-se por meios ilícitos, mas está obrigado a aguardar o tempo em que Deus o chamar, para assim ter a prova convincente que a sua vocação é do Senhor.
No que diz respeito aos ministros da Palavra, eles têm o mesmo poder e autoridade, independentemente do local onde estão, pois todos são servos de Jesus Cristo, o único Bispo universal e o único Cabeça da Igreja.
Além disso, para que a santa ordem de Deus não seja violada ou se torne desprezada, afirmamos que cada um deve ter especial consideração pelos ministros da Palavra e pelos presbíteros da Igreja, por causa do trabalho que realizam, e que deve viver em paz com eles, sem murmurações, contendas ou discórdias, tanto quanto for possível.
Artigo 32 – A ordem e a disciplina da Igreja
Cremos que, embora seja útil e bom que os governantes da Igreja entre si estabeleçam e conservem determinada ordem para manter o corpo da Igreja, no entanto devem se guardar de desviar-se daquilo que o nosso único Mestre, Cristo, nos ordenou. Por isto, rejeitamos todas as invenções humanas e todas as leis que se queiram introduzir para servir a Deus e assim tolher e constranger as consciências, de que maneira for. Aceitamos, portanto, apenas o que for útil para promover e guardar a concórdia e a unidade, mantendo tudo na obediência a Deus; para tanto exige-se a excomunhão, que se realiza conforme a Palavra de Deus, com o que dela resulta.
Artigo 33 – Os sacramentos
Cremos que o nosso bondoso Deus, levando em conta nossa pouca compreensão e nossa fraqueza, instituiu para nós os sacramentos, para nos selar as suas promessas e para serem penhores da sua benevolência e graça para conosco e ainda para alimentar e manter a nossa fé. Ele os ajuntou à Palavra do Evangelho para melhor apresentar aos nossos sentidos tanto o que nos fala por sua Palavra como também o que Ele faz internamente em nossos corações, consolidando em nós a salvação da qual nos faz participar. Pois os sacramentos são sinais e selos visíveis de uma coisa interior e invisível e através deles Deus opera em nós pelo poder do Espírito Santo. Por esta razão, os sinais não são vãos nem vazios para nos enganar, pois Jesus Cristo é a sua verdade e sem Ele, nada seriam.
Ademais, o número de sacramentos prescritos por Cristo, nosso Mestre, nos basta, não sendo mais de dois, a saber, o sacramento do Santo Batismo e o sacramento da Santa Ceia de Jesus Cristo.
Artigo 34 – O Santo Batismo
Cremos e confessamos que Jesus Cristo, que é o fim da lei (Rm 10.4), ao derramar seu sangue, pôs fim a todos os outros derramamentos de sangue que se pudesse ou quisesse fazer para a propiciação ou satisfação dos pecados. Ele aboliu a circuncisão, que se realizava com sangue, e em seu lugar instituiu o sacramento do Batismo, pelo qual somos recebidos na Igreja de Deus e separados de todos os outros povos e religiões estranhas para pertencermos completamente a Ele, cujo selo e estandarte carregamos. Isto nos serve de testemunho de que Ele será eternamente nosso Deus e nosso misericordioso Pai.
Assim Ele ordenou batizar todos os seus em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo (Mt 28.19), apenas com água. Com isto nos faz entender que, assim como a água que é vista quando derramada em nós e aspergida no corpo do batizado, lava as impurezas do corpo, também o sangue de Cristo opera a mesma coisa dentro da alma através do Espírito Santo, aspergindo e purificando-a do pecado e regenerando-nos de filhos da ira para filhos de Deus.
Não que isto aconteça pela água externa, mas sim pela aspersão do precioso sangue do Filho de Deus, que é o nosso Mar Vermelho, que precisamos atravessar para escapar à tirania de Faraó, isto é, do diabo, e adentrar no Canaã espiritual. Assim os ministros nos dão do seu lado o sacramento e o sinal visível, mas o nosso Senhor dá o que o sacramento significa, a saber, os dons invisíveis da graça: Ele lava, purifica e limpa as nossa almas de todas as impurezas e iniqüidades; Ele renova os nossos corações e os enche de toda a consolação, dando-nos uma segurança verdadeira da sua bondade paternal; Ele nos reveste do novo homem e nos despe do velho com todas as suas obras.

Por isto, cremos que aquele que quer receber a vida eterna, deve ser batizado apenas uma vez com o único Batismo, sem jamais repeti-lo, pois nós também não podemos nascer duas vezes. Este Batismo não apenas é útil enquanto a água estiver em nós e nós o recebemos, mas durante toda a nossa vida. Por isso rejeitamos o erro dos anabatistas, que não se satisfazem com um único Batismo que uma vez receberam e que, além disso, condenam o batismo dos filhos pequenos dos que crêem.

Cremos que se deve batizá-los, selando-os com o sinal da aliança, da mesma forma que as crianças pequenas em Israel eram circuncidadas baseado nas mesmas promessas feitas aos nossos filhos. E Cristo verdadeiramente derramou o seu sangue tanto para lavar os filhos pequenos dos que crêem como para os adultos. Por isto, eles recebem o sinal e o sacramento daquilo que Cristo fez por eles, como o Senhor ordenava na lei que se lhes conferisse, poucos dias depois de seu nascimento, o sacramento do sofrimento e morte de Cristo, oferecendo como sacrifício por eles um cordeiro, que era um sacramento de Jesus Cristo. Além disto, o Batismo faz aos nossos filhos o mesmo que a circuncisão fazia ao povo judeu, e esta é a razão por que Paulo chama o batismo de circuncisão de Cristo (Cl 2.11).
Artigo 35 – A Santa Ceia
Cremos e confessamos que o nosso Salvador Jesus Cristo ordenou e instituiu o sacramento da Santa Ceia para alimentar e sustentar aqueles que Ele já fez renascer e incorporou à sua família, que é a sua Igreja. Aqueles que renasceram possuem duas formas de vida. Uma delas é física e temporal: trouxeram-na do seu primeiro nascimento e é comum a todas as pessoas. A outra é espiritual e celestial: é lhes dada no segundo nascimento, que se realiza pela Palavra do Evangelho na comunhão com o corpo de Cristo; essa vida não é comum a todos, mas apenas os eleitos de Deus a possuem.
Assim Deus ordenou para a manutenção da vida física e terrena, pão comum e terrestre, que existe para isso e é comum a todos, assim como é a própria vida. Mas para manter a vida espiritual e celestial, que possuem os que crêem, Ele lhes enviou pão vivo, que desceu do céu, a saber, Jesus Cristo, que alimenta e sustenta a vida espiritual dos que crêem quando é comido, isto é, espiritualmente apropriado e aceito pela fé.
Para nos figurar este pão espiritual e celestial, Cristo ordenou pão terrestre e visível como sacramento do seu corpo e o vinho como sacra-mento do seu sangue. Com isto, Ele nos afirma que, tão certo como recebemos o sacramento e o temos em nossas mãos e o comemos e bebemos com a nossa boca, com a qual a nossa vida é sustentada, tão certo nós recebemos pela fé, que é a mão e a boca da nossa alma, o verdadeiro corpo e o verdadeiro sangue de Cristo, o nosso único Salvador, em nossas almas, para a nossa vida espiritual.
É certo e indubitável que Jesus Cristo não nos ordenou seus sacramentos à toa. Assim, Ele opera em nós tudo quanto Ele põe diante dos nossos olhos através destes sinais sagrados, embora a maneira pela qual isto acontece ultrapasse o nosso entendimento e seja insondável para nós, bem como a ação do Espírito Santo é oculta e insondável. Mesmo assim, não nos enganamos quando dizemos que o que comemos e bebemos é o próprio corpo natural e o próprio sangue de Cristo, mas a forma pela qual os tomamos não é pela boca, mas espiritualmente, pela fé.
Assim Jesus Cristo permanece sempre sentado à destra de Deus, seu Pai, nos céus, e contudo nos faz participar de Si pela fé. Esta ceia é uma mesa espiritual, à qual Cristo nos faz participar de Si mesmo, com todos os seus tesouros e dons, e nos deixa usufruir tanto de Si mesmo como também dos méritos do seu sofrimento e morte. Ele ali-menta, fortalece e consola nossas pobres almas desoladas por meio do comer de sua carne, e refrigera-as por meio do beber de seu sangue.
Ademais, embora os sacramentos estejam ligados às coisas por eles representadas, nem por isto são ambos recebidos por todos. O ímpio recebe sim o sacramento para sua condenação, mas não recebe a verdade do sacra-mento, da mesma forma que Judas e Simão, o mágico, receberam ambos o sacramento, mas não receberam a Cristo, por este representado, pois Ele é a parte apenas dos que crêem.
Finalmente, recebemos o sagrado sacramento na congregação do povo de Deus com humildade e reverência, enquanto celebramos com ações de graça a memória sagrada da morte de Cristo, nosso Salvador, e confessamos a nossa fé e a religião cristã. Por isto, ninguém deve se aproximar sem antes ter-se examinado a si mesmo de forma correta, para que, ao comer deste pão e beber deste cálice, não coma e beba juízo para si (1 Co 11.28,29). Resumindo, através do uso deste sagrado sacramento somos movidos a um ardente amor por Deus e nosso próximo. Por isto, rejeitamos todos os acréscimos e invenções condenáveis que os homens introduziram e misturaram aos sacramentos, profanando-os, e declaramos que deve-se contentar com a ordenação que Cristo e seus apóstolos nos ensinaram e que se deve falar sobre isto como eles falaram.
Artigo 36 – As autoridades civis
Cremos que o nosso bondoso Deus, devido à corrupção da raça humana, instituiu reis, príncipes e autoridades, porque Ele quer que o mundo seja governado por leis e regulamentações, para que a indisciplina dos homens seja contida e tudo transcorra com ordem entre eles. Para tanto, Ele deu nas mãos das autoridades a espada, para castigar os maus (Rm 13.4) e proteger os bons. E sua tarefa não é apenas olhar pela ordem pública e velar por ela, mas também manter o santo ministério da Igreja, combater e extirpar toda idolatria e falso culto a Deus, destruir o reino do anticristo, promover o Reino de Jesus Cristo e fazer pregar a Palavra do Evangelho por toda a parte, para que Deus seja honrado e servido por todos, conforme Ele ordena em sua Palavra.
Ademais, cada um, independente da sua qualidade, condição ou classe, é obrigado a sujeitar-se às autoridades, pagar impostos, prestar-lhes honra e respeito e obedecer-lhes em todas as coisas que não contrariem a Palavra de Deus, orando por elas, para que o Senhor queira guiá-las em todos os seus caminhos e para que vivamos vida tranqüila e mansa, com toda piedade e respeito (1 Tm 2.2). Por isto, reprovamos os anabatistas e outros revolucionários e, em geral, todos aqueles que rejeitam as autoridades e magistrados e que querem derrubar a ordem jurídica e introduzir a comunhão de bens e que perturbam os bons costumes que Deus estabeleceu entre os homens.

Artigo 37 – O juízo final

Finalmente, cremos, de acordo com a Palavra de Deus, que, ao chegar o tempo determinado pelo Senhor, o qual é desconhecido a todas as criaturas, e ao se completar o número dos eleitos, o nosso Senhor Jesus Cristo virá dos céus, física e visivelmente, do mesmo modo como Ele subiu ao céu (At 1.11), com grande glória e majestade, para se revelar Juiz sobre vivos e mortos, pondo este velho mundo em fogo e em chamas para purificá-lo. Então aparecerão diante deste grande Juiz todos os seres humanos pessoalmente, tanto homens como mulheres e crianças, que viveram desde o início até o fim do mundo, intimados pela voz do arcanjo e pelo som da trombeta de Deus (1 Ts 4.16).
Pois todos os mortos ressuscitarão da terra e as almas serão ajuntadas e unidas aos seus próprios corpos nos quais viveram. Aqueles que estiverem ainda vivos não morrerão como os outros, mas serão transformados num momento e de corruptíveis se tornarão incorruptíveis. Então se abrirão os livros, que são as consciências, e os mortos serão julgados (Ap 20.12) segundo o bem ou o mal que tiverem feito nesse mundo (2 Co 5.10). Sim, os homens darão conta de toda palavra frívola que proferiram (Mt 12.36), embora o mundo a considere apenas brincadeira e passatempo, e então as coisas ocultas e a hipocrisia dos homens serão trazidas publicamente à luz perante todos.
Por isso, o pensamento deste juízo é com razão terrível e amedrontador para os maus e ímpios e sobremodo desejável e repleto de consolo para os piedosos e eleitos, pois então a sua redenção será completada e receberão ali os frutos do penoso labor e sofrimento que suportaram; a sua inocência será reconhecida por todos, e verão a terrível vingança que Deus exercerá sobre os ímpios, que os tiranizaram, oprimiram e afligiram neste mundo. Estes serão convencidos de sua culpa pelo testemunho das suas próprias consciências e se tornarão imortais, mas apenas para serem atormentados no fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos (Mt 25.41).
Os crentes e eleitos, no entanto, serão coroados de honra e glória. O Filho de Deus confessará seus nomes diante de Deus, seu Pai (Mt 10.32) e dos seus anjos eleitos, e Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima (Ap 21.4). E reconhecer-se-á que a sua causa, hoje condenada por muitos juízos e autoridades como herética e ímpia, é a causa do Filho de Deus. E como galardão pela graça o Senhor os fará possuir tamanha glória que o coração humano jamais poderia imaginar. Por isto esperamos por aquele grande dia com forte anseio para gozar plenamente das promessas de Deus em Jesus Cristo, nosso Senhor.
 
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: